Quinta-feira,16 - Julho, 2009...8:19 pm
O SOM DOS NEGROS E JUDEUS NA AMERICA 16/07/2009
O SOM DOS NEGROS E JUDEUS NA AMERICA
Por Marcio Paschoal

Poucos sabem que uma das músicas preferidas da imortal Billie Holiday era uma composição de um professor judeu do ensino médio do Bronx, em NY, Abel Meeropolum.
A canção, “Strange fruit”, tem em seus versos todo o repúdio ao racismo e traduz o que o professor viu, numa tarde mormacenta do início dos anos 30: dois negros americanos que pendiam de uma árvore depois de linchados por uma multidão em Indiana, sul dos Estados Unidos.
A letra, forte e indignada, fala da cena horrível e das atrocidades que os homens ainda podem ser capazes de fazer: “Eis uma fruta/ Pra que o vento sugue/ Pra que um corvo puxe/ Pra que a chuva enrugue/ Pra que o sol resseque/ Pra que o chão degluta /Eis uma estranha/ E amarga fruta.”
Billie teve imensa dificuldade em poder gravar a música, já que os produtores de sua gravadora (Columbia Records) temiam possíveis represálias.
O próprio autor, escondeu-se através de pseudônimo, no caso, Lewis Allanele.
Os historiadores da cantora registram o fato de ela constantemente encerrar seus shows ao vivo com a canção. Billie exigia que os garçons parassem de servir e que as luzes se apagassem. Não à toa, “Strange Fruit”, na voz insidiosa de Miss Holiday, se transformou rapidamente num hino contra o racismo.
Baseado nessa, e em outras análogas histórias, Carlos Rennó e Jaques Morelenbaum reúnem astros da MPB para interpretar obras que brancos judeus compuseram e que se transformaram em grandes clássicos da música negra americana
O produtor Carlos Rennó escreveu as versões, e o maestro Morelenbaum ficou encarregado dos arranjos. O CD, com o nome de “Nego”, apresenta, entre outros destaques, clássicos como “My Romance” com Gal e Carlinhos Brown; “Over the Rainbow” com Zélia Duncan; e “Bewitched” com Maria Rita. Já “Strange Fruit” ficou com o cantor Seu Jorge.
De “Porgy and Bess”, a ópera negra de Gershwin, foi selecionada a clássica “Summertime”, na voz de Erasmo Carlos.
Uma curiosidade, fruto da pesquisa de Rennó: Frank Sinatra, que gravou “Old Man River”, foi homenageado por Ray Charles, que subiu ao palco e disse: “Frank, você uma vez juntou um monte de músicos brancos num estúdio branco para tocar e cantar essa música negra -que eu agora vou fazer ‘in my way’.” O trocadilho perfeito só não veio com a informação completa de que a música negra tinha sido feita por brancos judeus (Jerome Kern e Oscar Hammerstein). Esta canção, no CD, está a cargo de João Bosco. “Preto dá duro no Mississippi/ Duro pro branco poder brincar/ Puxando barco não descansando/ Até o juízo final chegar”, diz parte da letra.
Entre as décadas de 20 e 40, muito do que há de melhor no cancioneiro popular norte-americano foi produzido. Obras que ficarão para sempre na história das canções. E a maior parte do primeiro time de músicos era formada por judeus de origem simples, que descendiam de estrangeiros vindos da Europa: Gershwin, Irving Berlin, Richard Rodgers e Lorenz Hart são alguns nomes. A explicação para essa relação profunda, onde negros e judeus dos EUA se identificaram tanto, pode ser entendida pela origem de ambos, gente humilde e outsiders. A música era uma forma de desabafo e posterior identificação, quando músicos judeus assimilaram a música e a musicalidade dos negros.
Trabalhando juntos com MPB há longo tempo, a dupla Rennó/Morelenbaum planeja o lançamento do CD “Nego” para agosto.
(*) Marcio Paschoal é escritor..
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