Quinta-feira,26 - Fevereiro, 2009...12:10 pm

Só coisas boas - 26/02/2009

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SÓ COISAS BOAS

Tenho recebido cada vez mais mensagens de pessoas que descobriram a forma mágica de se eliminar completamente as influências negativas da cabeça que as impedia de alcançar seus potenciais plenos.           

Uma tentação essa idéia de conseguir destravar rapidamente os poderes do subconsciente e, assim, atrair riqueza e sucesso.  

Coaching, crescimento pessoal, motivação, autoestima  e superação mental estão na moda, e já que o cérebro é berço da inteligência, fonte de emoções e controla toda a nossa vida, faz um certo sentido treiná-lo às ondas positivas.

Uma recomendação comum a todos os manuais desse tipo: não desejar mal a ninguém, pois este volta célere e estoura bem na nossa fuça. Queira sempre o bem do próximo e viva cercado de auras benéficas. Só coisas boas e, dessa forma, a mentalização estimulará a criação de caminhos neurais do bem para que se atinja o que eles chamam de “funcionamento positivista  do cérebro”.
 
Primeiramente, jamais blasfemar; sem essa de ficar se queixando de tudo, sentindo-se perseguido. A lição maior é que, de agora em diante, não existem mais problemas nem chatos na sua vida.

Se o cara passar pela sua rua, gritando no amplificador para você comprar o camarão descascado dele, o pão fofinho, o ferro velho ou a velha pamonha de guerra, imagine que é só alguém visando ao seu ganha-pão, no caso, ganha-pamonha. A voz dele não é irritante, pense bem, você é que pode estar mal-humorado, sendo acordado sete da matina no sábado com aquela pamonha dos infernos em seus ouvidos.

Atenda com mais paciência ao pessoal do telemarketing, mesmo que a moça tenha aquele insuportável sotaque paulistano e insista em lhe oferecer um novo cartão de crédito, mais canais a cabo, promoções de celular, e o cacete. Não, o cacete, elas ainda não oferecem, mas chegará o dia. Enfim, rechace com calma todas as ofertas imperdíveis e tente imaginar que estão querendo o seu bem, a melhoria do nível do seu consumo. Não ceda à tentação de desligar na cara ou falar mal da mãezinha delas, isso pode voltar também contra você ou sua mãe. Mentalize somente coisas boas.

O guarda multou você por não estar com o cinto de segurança (você, não ele), pense na possibilidade de que dali a alguns metros há um poste traiçoeiro, um sinal fechado repentino ou um motorista de van que vem atrás e não para. Ele está só cuidando de você e da receita da prefeitura, é claro. Viu como você é útil?

Se um estagiário quiser lhe parar bem naquela hora em que você está com a maior pressa, não refugue ou dê desculpas, apenas procure responder todas aquelas perguntas originais de questionários desse tipo. E se o entrevistador lhe prometer que não demora, dois minutinhos no máximo, releve, mesmo que na 37ª pergunta você já estiver planejando esganá-lo. Tanta gente querendo aparecer, ser entrevistada e você a reclamar.

Se um moleque, no sinal de trânsito, jogar água suja com detergente vagabundo e arranhar o vidro do seu carro, pense que você ainda tem um carro, e que ele poderia estar armado, assaltando você. Ou ainda pior, fazendo malabares com os olhos vendados, em pé, nos ombros de um outro parceiro. Logo você, que sofre de vertigem de altura…

Não ligue se você for a um barzinho para conversar e um moço cabeludo, camisa florida, estilo banquinho e violão, começar a se esgoelar num microfone adaptado, numa cruel releitura de “Travessia”. Finja gostar, até aplauda no final. Entre no clima e peça “Andança”, “Amigo é pra essas coisas”, aquela do Oswaldo Montenegro ou qualquer uma do Djavan. Relaxe. Há situações piores, como, na praia, tomando seu chope sossegadamente e aquele grupo de pagode surgir do nada, todo suado, cheio de sorrisos desdentados, pandeiro na sua cabeça, numa feérica interpretação de “Pega no ganzê, pega no ganzá”. Meu Deus… 

Nunca se queixe do vizinho que curte hip-hop ou do seu filho adolescente que cisma em ouvir funk a todo volume. Calma, poderia ser o Jorge Vercilo ou o Zé Ramalho cantando Bob Dylan em português.  Ou ainda aquele morador sinistro que costuma roubar o jornal debaixo da sua porta. Tente controlar a raiva, afinal ele deve estar passando por problemas financeiros, além do mais, é letrado, e você não vive dizendo que o brasileiro precisa ler?

Dentro do ônibus, se oferecerem balas a um real, pegue rápido. Elas não têm gosto de nada, mas são menos perigosas que as perdidas.

Se, na beira-mar, uma bola de frescobol atingi-lo em cheio na cabeça, não reaja, devolva a bolinha e sorria. Quem mandou você resolver atravessar bem naquela hora para ir mergulhar? O pitbull simpático a seu lado está sem coleira e olha fixo para você? Pense positivo, ele deve ser manso ou banguela. Falando em cachorro, quando andar pela calçada, olhe para o chão, cuidando para não pisar nos cocôs espalhados. Caso isso ocorra e você estiver com aquele tênis cheio de travas e relevos na sola, descarte o suicídio, pense que poderia ter sido pior e você estar descalço.

Ao menos, a merda em que você está não é metafórica, é só literal. Um banho resolve. Pense nisso…

(Marcio Paschoal)

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