2 - Novembro, 2008

Quando o Lobo cai da Estepe - 02/11/08

QUANDO O LOBO CAI DA ESTEPE

Outro dia dei-me conta de que o tempo andava passando mais rápido do que devia. Diferentemente do que Mick Jagger preconizava em “Time is on my side”, parece que ele, o tempo, mudou de lado.

De uns meses para cá, dei para ouvir seguidos comentários do tipo: “sua aparência anda ótima!”.

O que isso quererá dizer?

Pode ser deboche. Ou ainda que alguém esteja tentando animar você. “Para sua idade, até que você está legal…”.

Encorajador, não é mesmo? Perigo. Sinal vermelho. As aparências costumam enganar e, nesse caso, com a devida licença poética de meu amigo Natureza, literalmente.

Não que eu costume reclamar de ter ultrapassado a faixa dos cinqüenta e cinco. Nada disso. Com a experiência inevitável adquirida, passamos a saber de quase todas as respostas. O duro é que pouca gente está interessada nelas.

A saída é manter a classe e tentar ser mais otimista que idiota. Por exemplo, ainda insistir em ser romântico. Como o compositor mineiro Vander Lee alertou: eles são poucos e loucos. Mas insisto e, sempre quando posso, prefiro a luz das velas. O chato é que não enxergo quase nada, e isso pode trazer problemas. Noite dessas, num jantar assim, me senti o Mr. Magoo à mesa. Os jovens não sabem quem foi Mr. Magoo. Podemos trocar por Stevie Wonder.

Outro dissabor: agora esqueço as coisas com velocidade diametralmente oposta à lembrança. Mas mantenho-me calmo. Em São Luís, recentemente, convidado para uma palestra sobre João do Vale (sim, sou-lhe biógrafo) respondi a uma jornalista que me perguntava quem era João do Vale. – Sabe que não sei - respondi. Ela ficou espantada com minha ironia. Eu também.

Para resolver o problema da memória, faço uso de ginkobiloba e outros remédios naturais que não me lembro agora.

Ainda permaneço vaidoso, mesmo com o passar dos anos. Penteio sempre os cabelos, ou tento arrumar os que sobraram. Obedecendo a ordens médicas, faço exercícios ao ar livre, andando de carro de janela aberta. Também contratei um personnal runner para correr por mim. Embora desconfie que ele ultimamente ande me enganando, visto eu ter engordado vários gramas.

Sim, os anos cinqüenta são letais. Tudo dói, e se não dói é porque parou de funcionar.

E o sexo? Ah, o sexo…

Quando jovem, sofria pela sensação de não saber o que fazer. Cada ano que se segue, sinto-me mais solto. A sensação agora é de não ter o que perder.

Os pêlos começam a crescer nos espaços mais inusitados, as pernas incham, a coluna entrava, as varizes assolam, a tosse se repete.  Mas há compensações: para-se de fumar e o fôlego melhora. Só não se sabe bem para quê.

Meu fígado já não suporta mais as três doses de uísque para a humanidade ficar no ponto; duas caipirinhas me deixam ébrio; o chope dá barriga. Nem beber em paz e com dignidade se pode. E quanta falta o álcool me faz na cama. Antigamente, quando bebia, me transformava num animal selvagem. Hoje, viro no máximo, uma preguiça doidona, um tatu insone, ou um bode expiatório.

É a idade do lobo. Bobo. Do que despencou da estepe, apud Hesse. Da lubricidade senil. Das taras irrealizáveis, e da experiência para nada.  E não se pode queixar, nem apelar para a máxima de dias melhores que virão, afinal, já me dizem que depois dos sessenta ainda pode ser pior.

Carpe diem, cinqüentões, a hora é essa.

Marcio Paschoal

14 - Setembro, 2008

A nudez virilha abaixo - 14/09/2008

Quando Fernando Sabino imaginou seu “homem nu”, estarrecido com a própria nudez no corredor ante a porta do apartamento fechada atrás de si, tinha início um dos melhores momentos do conto rápido nacional. A imagem da conseqüente vulnerabilidade daquele homem é inesquecível. Não há leitor que não se aflija. Nem tanto pela falta de sorte do personagem, mas por pura solidariedade que se torna latente. A agonia dele é a nossa possível agonia.

Por que a nudez incomoda tanta gente?

Nascemos nus, reproduzimo-nos nus (quase sempre) e na morte, já não importa o que vestimos.

Outro dia, na tevê, vi a atriz Lucélia Santos declarar que quando ficava nua diante das câmeras, estas lhe cobriam. Vestiam-lhe de arte. Já, para a revista, a pose era outra e a grana alta justificava. Gostei da objetividade da segunda opção. Estava inaugurada a nudez técnica.

Nessa altura do campeonato, a nudez dos sexos já não oferece mistérios. Os biquínis viraram fios, o soutien entrou em extinção e nada mais espanta, frontalmente ou não.

Minha maior experiência com o tema aconteceu num verão pós-carnaval em Búzios, em que acabei na praia de Abricó (nome perigosíssimo para praia de nudismo), um recanto de naturistas, exóticos praticantes do nu sem ser artístico.

Éramos dois casais, relaxando nas imediações da referida praia, protegida por alguns morros, ignorando a que ela se prestava (a praia). Nossos amigos estavam com o filho adolescente, o Felipinho, que sabia das funções escusas de Abricó e, a todo instante, insistia para que alguém o acompanhasse até lá. Os pais, obviamente, rechaçaram a idéia, e minha mulher avisou do ridículo que seria eu ficar pelado sem mais nem menos. Não me lembro bem, mas explicou seu raciocínio, como algo a ver com poluição visual, que fingi não entender.

Diante da troça de todos, resolvi desafiar a maioria e surpreender, me oferecendo a acompanhar o jovem. A princípio, todos riram, inclusive o Felipinho. “Você nuzão, tio? Duvido!”. Tentei argumentar, lembrando Pero Vaz de Caminha sobre os índios, na famosa carta ao rei: “andam nus, sem cobertura alguma, não fazendo o menor gesto de cobrir ou mostrar suas vergonhas, e nisso são tão inocentes como quando mostram o rosto”. Concluí que a maldade estava nos olhos e nos rostos dos outros, e decidi que não teria mais vergonha das minhas vergonhas.

Ninguém me levava a sério. Mas Felipinho já estava mais animado. Via um fio de esperança a cada latinha de cerveja entornada.

Mais algumas cervejas e bravatas, levantei-me de supetão e anunciei que rumaríamos às entranhas de Abricó. Todos imaginavam que eu blefava, que daria meia-volta, que era só uma ameaça. Mas, eu me decidira mesmo. Para alegria de Felipinho.

Mal sabia o que iria me acontecer.

Para se chegar à praia naturista, tem-se que escalar alguns morros, num caminho íngreme e irregular, recheado de fendas, espinhos, cactus e coco de cachorro.

No meio do trajeto, por areias desérticas, um dos pares da minha sandália havaiana arrebentou e tive de seguir descalço, quando pude constatar que o caminho era de seixos, pedras, e que a areia não era quente, e sim escaldante. Comovido com meu martírio e diante da ameaça de iminente recuo, Felipinho cedeu-me as suas.

Passado o primeiro obstáculo, defrontei-me com o próximo desafio: uma fisgada na virilha direita, em razão dos muitos declives e barrancos que faziam com que abríssemos as pernas das mais improváveis e elásticas maneiras.

Cheguei ao local, depauperado e mancando visivelmente. Mas fingi nobreza. Tirei a sunga, camisa e adentrei triunfante, como um Radamés de ópera marchando em Aída.

Felipinho vinha atrás, extasiado. Era muita mulher bonita, um time de garotas belíssimas e folgazãs. Soubemos que se tratava de uma agência de modelos sueca que estava em peso na praia. Pentelhos à milanesa, seios pululantes e bundas rubicundas de brotoejas, num festival escandinavo e pornográfico. Procurei o controle, afinal a maldade deveria vir dos olhos e rostos dos outros. Felipinho, nem aí com dilemas, não se continha e disfarçava toda sua paudurescência, agachando-se na areia.

Ao meu lado, um senhor quase calvo, com rabo-de-cavalo e possivelmente depilado tomava sol com sua prótese peniana para cima, em busca de bronzeamento pélvico total. Mais esdrúxulo, difícil.

Um ambulante que vendia biscoitos de polvilho me surgiu de repente, com seus bagos balançando bem na minha testa. Foi o bastante para cair na realidade e começar a convencer Felipinho de que era melhor sairmos dali. Mas ele não tinha ouvidos para mim, e só vistas para uma modelo loura que, deitada bem defronte, abria e fechava suas longas pernas. A moça tinha uma bela tatuagem no tornozelo, mas Felipinho nem notou.

E assim seguimos mais um tempo: ele torcendo para as horas pararem e eu para que não houvesse ninguém conhecido ali e, é claro, que o vendedor de biscoitos não voltasse.

Como tudo cansa, até close genital, Felipinho aceitou irmos enfim embora. O trágico foi que minha virilha piorara. Houve um certo momento no caminho de volta, espremido entre um barranco e uma pedra, que pensei em pedir resgate. Minha vida por um helicóptero.

Nem sei como chegamos.

Naquele momento, pude compreender toda a dramaticidade rodriguiana, quando a dançarina de inferninho Geni (Darlene Glória) via toda a sua nudez ser castigada. Estou contigo, Geni, e não abro. Até porque até hoje minha virilha direita nunca mais foi a mesma.

31 - Agosto, 2008

As abelhas e a compostura obrigatória - 31-08

AS ABELHAS E A COMPOSTURA OBRIGATÓRIA

Há uma discussão acirrada acerca do real objeto de estudo da política, como ciência. Para alguns cientistas, é o Estado e, para outros, o poder. Embora esteja bem claro atualmente que o que virou o centro das atenções e do jogo é o poder. Este já não emana do povo, mas faz deste a sua vítima preferida. É o tempo de cada um cuidar de si e dane-se o resto. E o resto está reagindo. Cinicamente, mas está.
   
Cada vez mais aumenta o número de eleitores que gostaria de se enquadrar na categoria de não-eleitores. Ninguém acredita mais em políticos, Mas, vai uma enorme diferença entre políticas e políticos, mormente os maus. Deve-se sempre acreditar na ciência, mesmo a política.

Para Platão, o primeiro e fundamental problema da política reside no equívoco de que todos os homens acreditam-se capacitados para exercê-la. Para melhor ilustrar o seu ponto de vista, o filósofo recorria à comparação da atividade do político com a tecelagem. Por isso, o político devia desenvolver habilidades tais como conseguir misturar o tecido maior e melhor com o menor e o pior (isto é, encontrar o equilíbrio entre os fortes e poderosos e os mais fracos e indefesos).

Parece-nos que, de uns tempos para cá, os tecelões andam costurando somente em próprio proveito. O grave, agora, é a mudança que constatamos na base, ou seja, na camada dos que votam e elegem picaretas. Enquanto no Rio de Janeiro, a Câmara (que tem 50 vereadores, mais de mil funcionários e orçamento anual de quase 270 milhões) encontra-se freqüentemente vazia, as salas de espera dos escritórios dos vereadores vivem apinhadas de eleitores, cada qual com seu pedido no bolso e um problema particular para resolver. Então, conclui-se que a população trocou as grandes causas pelas pequenas questões. Todos querendo o seu na peleja da farinha pouca e do pirão primeiro. Transferiu-se o foco, e a política virou politicagem, passando a ser uma moeda de obtenção de vantagens.

Outro sério entrave a uma possível modificação comportamental é que não há renovação a vista. Ou seja, como no recado do baião, quem está fora quer entrar e quem está dentro não quer sair. Deve mesmo estar bom demais.

E para entrar está valendo tudo, até pedir voto na televisão enquanto se está preso por crime eleitoral. É o caso da criminalmente hereditária candidata a vereadora Carminha Jerominho (PT do B), filha do vereador Jerominho (PMDB) e sobrinha do deputado estadual Natalino Guimarães (sem partido) ambos presos por envolvimento com milícias.

Acresça-se a tudo isso o ridículo e a cara de pau de alguns, e vê-se o crítico e caótico da situação. O PSC, por exemplo (mau, por sinal), tem como candidatos a vereador tipos do nível de um Amigo Mago,  Baixa Renda e o Daniel De Plá. Este último garantindo que fica bem na foto.

Bizarrices que não são exclusividade do Rio, pois em São Paulo, berço de malufes e clodovis, há um candidato chamado Lingüiça, que ameaça em sua sutil campanha:”Linguiça neles!”.  Já em Minas, o candidato a vereador Pinico anuncia que é chegada a hora de parar de votar em m… e passar para o recipiente. Ainda beirando o quase inimaginável, em Goiás há o candidato conhecido como Pé, com o slogan: “Não vote sentado, vote em Pé”.  No Nordeste, a recalcitrante Dinha pede o seu voto: ”Tudo pela DInha”.   Assim não há tecelão platônico que possa dar jeito.

Atenção, TRE: igualmente como o voto, a mínima compostura de quem se candidata também deveria ser obrigatória.

Sei não, mas estou achando que ainda vou passar bem mais que quatro anos com muita abelha zoando dentro do meu ouvido.