6 - Dezembro, 2008

Campos de Carvalho em versão oficial - 07-12- 2008

CAMPOS DE CARVALHO EM VERSÃO OFICIAL

Fotos: Internet

Acabo de ver na tevê que a Xuxa vai receber o Papai Noel no Maracanã. Precedendo a chegada de helicóptero do velhinho, um show com Leonardo (ex de seu irmão), Daniel (ex de seu melhor amigo), Kelly Key (ex de seu pseudo latino-amante) e outros. Está certo, há gostos estranhos na época do Natal. Um tempo diferenciado, no qual vende-se de tudo, inclusive algumas almas, e os corações e mentes ficam mais sensibilizados.

Mas nada disso importa muito. O fato a se destacar aqui é o anúncio da chegada do Papai Noel “Oficial”. Como assim, oficial? Por acaso, os demais não o seriam? Os dos shoppings que passam horas batendo fotos com as crianças no colo, ou os que chegam nas escolas, nos clubes e nas festas domiciliares seriam cópias sem garantia? Noéis piratas? Bem-feito para o tal que, supõe-se, venha da Lapônia no trenó e com renas. Virou um extra-oficial.

Isso tudo me fez lembrar de Walter Campos de Carvalho, uberabense genial e autor de obras carregadas pelo non sense.

Por exemplo, a chegada “oficial” do Papai Noel dava, perfeitamente, para entrar direto no romance “A lua vem da Ásia”, escrito na década de 50, uma história sem pé mas muita cabeça, espécie de elogio irônico à ruptura de qualquer possível lógica que não a absoluta falta dela. O Papai Noel “Oficial” da Xuxa, certamente, vem da Ásia lunar. 

Campos de Carvalho, morto em 1998 aos 82 anos, hoje veria sua obra literalmente compreendida, ele, que foi um visionário dos atuais e irracionais tempos de bispos Macedo, César Maias, Fausto Silvas e dengues hemorrágicas. Afinal, o sem juízo em suas obras (cinco romances, alguns ensaios, crônicas e contos) é justamente aquele que consegue entender o recôndito humano. O sadio é apenas oblíquo e o grande responsável pelo pinel real e o caos entre nós.

Como na doideira da balada do Pink Floyd, quando brilha o diamante maluco; ou na dos Mutantes, assumindo um Alain Delon perante os bonitos; ou na mente de Raul, na hora de se metamorfosear em detrimento da velha opinião, ou ainda ficar maluco beleza em vez de fazer tudo igual como um sujeito normal, Campos elege os furiosos e a beleza esquizofrênica do bom senso no insensatez.

Em outro romance, “A vaca de nariz sutil”, seu personagem principal é um ex-combatente que volta à pátria e se envolve com uma menor, filha do zelador de um cemitério. A questão colocada é a incoerência de se aceitar como herói quem mata na guerra, e se transformar em criminoso social aquele que se apaixona por uma adolescente.

Hoje, com a Internet, alguns padres pedófilos insuspeitos e até certos roqueiros camelos que se enamoram de menores, fica mais fácil compreender o romancista. É mesmo muita sutileza para uma vaca só.

Meu livro preferido de Campos é “A chuva imóvel”, certamente o mais filosófico.  André, seu protagonista, acaba em crise existencial profunda e só vê a saída no suicídio, ou na imobilidade da chuva em salivas metafóricas sendo cuspidas em sinal de protesto. A chuva, que quer cuspir e não pode, remete ao porquê da “oficialidade” do Papai Noel da Xuxa.

Voltemos ao autor. Sua obra mais famosa é “O Púcaro Búlgaro”, escrita em 1964 no tempo recorde de vinte e dois dias, e que teve recente montagem teatral elogiada. A ação tem início num museu norte-americano, onde Hilário, o personagem central, encontra o tal púcaro, e retorna imediatamente ao Brasil a fim de organizar uma expedição para a descoberta da Bulgária.

O cerne do livro é a não-epopéia, ou seja, a viagem que nunca sai do papel, não deslancha e resulta invariavelmente na inércia. Isto é, não se vai nunca a lugar nenhum, quanto mais à Bulgária. O contraponto de Hilário é o professor Radamés, um bulgarologista tão doido quanto.

A primeira vez que associei as intenções e o incrível efeito do púcaro em minha vida foi nos primórdios do bloco carnavalesco do Bip Bip em Copacabana, que vivia se concentrando e enchendo a cara dos foliões, e ninguém acabava sabendo quando sairia, e, se por acaso saísse, em qual direção. Ali, no bar do Alfredinho, vivi meu púcaro inicial. Outros mais viriam, como um incessante repetir da filosofia camposcarvalhiana. Carpe diem que não se chega a rien,

Em face disso, pode-se tentar decifrar o caráter “oficial” da chegada do Noel da Xuxa: o mesmo helicóptero que trará o bom velhinho o levará de volta, até o ano que vem, quando, quem sabe, alguma vaca sutilmente nariguda, talvez uma lua delirante, uma chuva que cospe, ou um certo púcaro búlgaro, farão todo o sentido e levarão avós, pais e filhos no Maracanã ao transe e delírio. Se todos, de perto, são loucos de pedra, calcule num estádio de futebol lotado.

A lógica da pura insanidade foi a marca da literatura de Campos de Carvalho e, nestes nossos dias, se vê bem que a sua loucura racional não era só um vaticínio, mas uma  mera constatação. Oficialmente falando, é claro.

  • …………………………………………………………………………………………………………………………………………………………
    *Marcio Paschoal é escritor.

 

23 - Novembro, 2008

A felicidade mora no terceiro andar - 23-11-08

A FELICIDADE MORA NO TERCEIRO ANDAR

Imagem: Tela de Edward Hopper “Hotel Room”

Outro dia, ouvi a máxima de que a vida interior é a verdadeira responsável pela felicidade a que estamos acostumados a entender. Clichês e lugares comuns ressaltam o lado fútil das coisas. Os budistas separam a felicidade da paixão, posto terem-na com um excesso de sentidos. Os árabes vêem-na mais na transição com a outra vida, cheia de mulheres bonitas e prosperidade, num xangri-lá pós-mortem. O cristianismo prega (Cristo e pregações - inclusive às da cruz – sempre soam a pleonasmo) que aqueles que adentrarem ao reino dos Céus serão felizes, mesmo ignotos. Verdade é que quando não se consegue ser feliz consigo, fica bem difícil sê-lo com toda gente ao redor. O lado interior, mesmo levando-se em conta o raio-X, sempre será mais importante que o externo. Às vezes, no caso, até a beleza comprova.

Em Fortaleza, convidado para o ótimo Programa “Literato” do BNB - Banco do Nordeste, falei para pessoas interessadas na vida do cantor e compositor maranhense João do Vale, de quem sou orgulhoso biógrafo.

Levado pela produção a um belo hotel, na beira da praia de Iracema, curtindo o barulho das ondas e serviço caprichado, só acabei por ter meus melhores momentos quando me transferi para a casa da simpática família Candido.  Foram dois dias, com muita alegria, papo animado, camarão, ostras com limão, caipirinha idem e chá de casca de laranja para acalmar o estômago. Muita música, noites fabulosas e vontade de ficar mais. Muito diferente da frieza do hotel estelar. Até aí, tudo bem, é sabido o lado gélido e impessoal dessas acomodações, principalmente quando se está sozinho (consigo mesmo?).

Semana seguinte, já estava a caminho de São Luís, para a II Feira do Livro, convidado para falar sobre o mesmo João, agora para uma platéia mais calorosa. A eficiente organização me instalou no tradicional hotel no centro histórico, com todas as mordomias e agregados, e qual não foi a minha surpresa ao concluir que meu melhor momento acabara sendo o convite para uma sopa de legumes na casa de minha amiga, tendo o famoso abacaxi de Turiaçu como sobremesa. Só isso: sopa, abacaxi doce e uma velha amiga maranhense que detesta pizzas.  

Seria esse o lado simples o mais importante e interior das coisas? Aquele que não precisa de senões, luxo ou circunstâncias?

Duas semanas depois, já estava de malas prontas para a 54ª Feira do Livro de Porto Alegre. Sabemos que depois de certa idade, não nos habituamos mais a acampamentos, aventuras romanescas ou falta de mínima urbanidade, traduzida por boa cama, chuveiro com água quente, serviços de lavanderia e silêncio. Confesso que fiquei ressabiado, pois não ficaria num hotel tradicional, e sim na casa de uma simpática amiga que fez questão de me receber.

O que seria supérfluo ou necessidade real?

Vamos, então, aos fatos. Tirante a Feira que todo mundo sabe que é concorrida, vou me ater à minha chegada na cidade e posterior instalação.

Vamos lá. Direto do aeroporto para a casa da minha amiga, na avenida Protásio Alves, por onde circulam ônibus, carros, lotações e, não tão raramente, algumas carroças com pangarés. Enfim, uma babilônia de trânsito intenso e barulho idem. A entrada do prédio era através de uma porta de ferro. Ao lado, uma loja de conserto de máquinas de lavar roupa. Três andares, sem elevador. Porteiro não havia, como também não havia nenhuma empolgação de minha parte, em contraste com a animação da minha anfitriã.

O que fazer?  Carregar a mala, escada acima, rumo ao cadafalso iminente.

Entro no lugar e observo a decoração. Minha amiga, viajante de outras estadas, tinha estatuetas hindus espalhadas, bonecos do sertão baiano, carrancas do São Francisco, máscaras venezianas, papiros egípcios, bordunas do Xingu, fetiches polinésios, enfim, um epcot center de ambiente.

Levado a meu quarto (que era o dela, gentilmente cedido), atravessei um corredor, repleto de instrumentos musicais pelas paredes, algo parecido com banjos, e também algumas reproduções de artistas surrealistas. O quarto era o mais afastado do barulho da rua e, portanto, presumivelmente mais silencioso. Agradável impressão logo desfeita pela constatação de que dava para os fundos de uma escola. Além do que, informado que as cortinas haviam sido retiradas para lavar, imaginei a alvorada em minha cama. Ou seja, poderia enfim conhecer o tão famoso sol do Guaíba, às seis da manhã, direto na cara.

Antevi meu padecimento, e me preparei para o pior.

Mas o que eu não sabia era que aquele apê na Protásio Alves estava abençoado e vigiado por bruxas e deuses. Um astral dividido entre o divino e o pagão. Como se a doideira da geração dos anos 70 revivesse, e uma alegria reinasse sob a forma de sonho, celebrando livre alguma coisa indecifrável. De repente, via no sofá uma loura, sósia da Cicarelli do bem, contando as novidades com a boca cheia de sorrisos; ou então, dava de frente com um simpático músico vindo de Alegrete, portando uma cachacinha artesanal com uva para todos experimentarem; em outro momento recebíamos a visita de uma cantora de rock, meio punk, que adorava tango depois de duas taças de vinho; ou ainda aparecia uma balzaquiana, praticante de boxe e ioga e que se confessava psicóloga gestaltiana. Sem que se percebesse, a sala estava completa e as pessoas pareciam mais felizes dentro daquela casa. Uma espécie de magia minuana. O coração da dona da casa tinha o tamanho do mundo e tudo ficava mais encantador naquele pedaço. Mais ainda quando, ao fundo, numa vitrola, ouvíamos o vinil do Piazzola na balada del loco.

Enfim, há quem garanta que a busca de ser feliz está nessas coisas que comumente parecem não valer muito. A felicidade, comparada a um estado transitório da nossa alma, naquela semana resolvera se instalar na casa da minha amiga, num certo apartamento no terceiro andar da Protásio Alves, no baixo Porto Alegre.

2 - Novembro, 2008

Quando o Lobo cai da Estepe - 02/11/08

QUANDO O LOBO CAI DA ESTEPE

Outro dia dei-me conta de que o tempo andava passando mais rápido do que devia. Diferentemente do que Mick Jagger preconizava em “Time is on my side”, parece que ele, o tempo, mudou de lado.

De uns meses para cá, dei para ouvir seguidos comentários do tipo: “sua aparência anda ótima!”.

O que isso quererá dizer?

Pode ser deboche. Ou ainda que alguém esteja tentando animar você. “Para sua idade, até que você está legal…”.

Encorajador, não é mesmo? Perigo. Sinal vermelho. As aparências costumam enganar e, nesse caso, com a devida licença poética de meu amigo Natureza, literalmente.

Não que eu costume reclamar de ter ultrapassado a faixa dos cinqüenta e cinco. Nada disso. Com a experiência inevitável adquirida, passamos a saber de quase todas as respostas. O duro é que pouca gente está interessada nelas.

A saída é manter a classe e tentar ser mais otimista que idiota. Por exemplo, ainda insistir em ser romântico. Como o compositor mineiro Vander Lee alertou: eles são poucos e loucos. Mas insisto e, sempre quando posso, prefiro a luz das velas. O chato é que não enxergo quase nada, e isso pode trazer problemas. Noite dessas, num jantar assim, me senti o Mr. Magoo à mesa. Os jovens não sabem quem foi Mr. Magoo. Podemos trocar por Stevie Wonder.

Outro dissabor: agora esqueço as coisas com velocidade diametralmente oposta à lembrança. Mas mantenho-me calmo. Em São Luís, recentemente, convidado para uma palestra sobre João do Vale (sim, sou-lhe biógrafo) respondi a uma jornalista que me perguntava quem era João do Vale. – Sabe que não sei - respondi. Ela ficou espantada com minha ironia. Eu também.

Para resolver o problema da memória, faço uso de ginkobiloba e outros remédios naturais que não me lembro agora.

Ainda permaneço vaidoso, mesmo com o passar dos anos. Penteio sempre os cabelos, ou tento arrumar os que sobraram. Obedecendo a ordens médicas, faço exercícios ao ar livre, andando de carro de janela aberta. Também contratei um personnal runner para correr por mim. Embora desconfie que ele ultimamente ande me enganando, visto eu ter engordado vários gramas.

Sim, os anos cinqüenta são letais. Tudo dói, e se não dói é porque parou de funcionar.

E o sexo? Ah, o sexo…

Quando jovem, sofria pela sensação de não saber o que fazer. Cada ano que se segue, sinto-me mais solto. A sensação agora é de não ter o que perder.

Os pêlos começam a crescer nos espaços mais inusitados, as pernas incham, a coluna entrava, as varizes assolam, a tosse se repete.  Mas há compensações: para-se de fumar e o fôlego melhora. Só não se sabe bem para quê.

Meu fígado já não suporta mais as três doses de uísque para a humanidade ficar no ponto; duas caipirinhas me deixam ébrio; o chope dá barriga. Nem beber em paz e com dignidade se pode. E quanta falta o álcool me faz na cama. Antigamente, quando bebia, me transformava num animal selvagem. Hoje, viro no máximo, uma preguiça doidona, um tatu insone, ou um bode expiatório.

É a idade do lobo. Bobo. Do que despencou da estepe, apud Hesse. Da lubricidade senil. Das taras irrealizáveis, e da experiência para nada.  E não se pode queixar, nem apelar para a máxima de dias melhores que virão, afinal, já me dizem que depois dos sessenta ainda pode ser pior.

Carpe diem, cinqüentões, a hora é essa.

Marcio Paschoal